02 abril 2007

Ciência e crença

Não é o grau de adesão às crenças que as transforma em conhecimento. De facto, o traço distintivo do comportamento científico é um certo cepticismo mesmo em relação ás teorias mais acalentadas. A adesão cega a uma teoria não é uma virtude intelectual - é um crime intelectual.

Imre Lakatos

2 comentários:

Lourenço disse...

Sobre convicções
«(...)
Convicções são entidades mais perigosas que os demônios. E o problema é que não há exorcismo capaz de expulsá-las da cabeça onde se alojaram, pela simples razão de que elas se apresentam como dádivas dos deuses. Os recém-convertidos estão sempre convictos de que, finalmente, contemplaram a verdade. Daí a transformação por que passam: seus ouvidos, órgãos de audição, se atrofiam, enquanto as bocas, órgãos da fala, se agigantam. Quem está convicto da verdade não precisa escutar. Por que escutar? Somente prestam atenção nas opiniões dos outros, diferentes da própria, aqueles que não estão convictos de ser possuidores da verdade. Quem não está convicto está pronto a escutar - é um permanente aprendiz.
(...)
Dizia Nietzsche que "as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras". Estranho isso? Não. Absolutamente certo. Porque quem mente sabe que está mentindo, sabe que aquilo que está dizendo é um engano. Mas quem está convicto não se dá conta da própria bobeira. O convicto sempre pensa que sua bobeira é sabedoria.
As inquisições se fazem com pessoas convictas. (...)
Mas os demônios das convicções têm atributos dos deuses: são omnipresentes. Escorregam da religião. Emigram para a política. (...)
Nenhuma instituição está livre dos demônios das convicções. Nem mesmo a ciência.
(...)»
Rubem Alves
(In: O que é científico? Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2007, pp 45-47)

Rui Areal disse...

Excelente texto! A convicção acrítica é o ponto de partida de todos os totalitarismos políticos ou intelectuais... O trabalho da filosofia é precisamente desmontar a existência de tais convicções. Nenhuma «verdade» é suficientemente «clara e distinta» para merecer ser o alicerce de um movimento opressor, político ou apenas intelectual.
A propósito... daí que acho que os sindicatos devem negociar se o Ministério se abrir a uma negociação efectiva.
abraço

filosofiareal

«Quem hoje em dia ensina filosofia não selecciona o alimento para o seu aluno com o objectivo de lhe adular o gosto, mas sim para o modificar.»
Wittgenstein