11 março 2007

A verdade e o mundo

Temos de fazer uma distinção entre a tese de que o mundo está diante de nós e a tese de que a verdade está diante de nós. Dizer que o mundo está diante de nós, que não é uma criação nossa, quer dizer (...) que a maior parte das coisas no espaço e no tempo são efeitos de causas que não incluem os estados mentais do ser humano. Dizer que a verdade não está diante de nós é simplesmente dizer que onde não há frases não há verdade, que as frases são elementos das linguagens humanas e que as linguagens humanas são criações do homem.
A verdade não pode estar diante de nós - não pode existir independentemente da mente humana - porque as frases não podem existir dessa maneira ou estar diante de nós dessa maneira. O mundo está diante de nós, mas as descrições do mundo não. Só as descrições do mundo podem ser verdadeiras ou falsas; o mundo por si próprio - sem o auxílio das actividades descritivas dos seres humanos - não pode.

Richard Rorty

4 comentários:

Desidério Murcho disse...

Olá, Rui

Excelente citação, claríssima, de Rorty. É verdade que sem linguagem não há verdade mas também é verdade que é a realidade que faz as frases verdadeiras ou falsas e não apenas a linguagem.

É porque a frase "A neve existe" diz o que diz e porque a neve existe que a frase é verdadeira. Não é verdadeira só porque a frase diz o que diz, ou seja, não é verdadeira só porque representamos a realidade de uma determinada maneira.

Esta é a intuição realista que Rorty quer negar, mas esta passagem não tem evidentemente esse objectivo, pois o realista concorda com esta passagem sem problemas.

a-real disse...

Olá Desidério,
obrigado pelo comentário. Obviamente, para Rorty, a verdade não depende de nenhuma relação com o mundo.

Sinceramente, não sei em que posição epistemológica me posso colocar. Já li bastante mas não sei se posso ou não concordar com um essencialismo ou um coerentismo. Julgo que a resposta a esta discussão passa, também, pela Biologia e Neurologia. Não é só a capacidade de conhecer a realidade que está em jogo, mas também a de conseguir formular conceitos realmente universais. Alguns investigadores sugeriram recentemente que alguns conceitos matemáticos são inatos... Sei da exist~encia de uma disputa entre os matemáticos curiosíssima para nós filósofos. Será que seres extra-terrestres terão a mesma «matemática» que nós? Ou terão outra visão matemática do mundo?

Mas compreendo que se evite abordar Rorty a fundo no ensino secundário. Abordei esta passagem na aula e senti alguma dificuldade por parte mesmo dos melhores alunos.
Abraço
rui

Lourenço disse...

Convém relembrar que não há verdades absolutas e definitivas(Falsificabilidade de Popper ou "temporalidade" do paradigma de Kuhn). Apreendemos o mundo com o cérebro que herdámos da evolução - "não sabemos" o quão limitado ele é... basta ver que outros animais conseguem captar estímulos que nós não conseguimos.
Se a evolução nos tivesse "dado" outro cérebro, veríamos outra realidade?

Rui Areal disse...

Daí a minha curiosidade pela obra de um biólogo chileno que é simultaneamente um grande epistemólogo: Humberto Maturana! Mesmo dentro da nossa espécie a criação mental do mapa do exterior não é idêntica, e por isso não podemos com certeza afirmar que descrições da realidade são verdadeiras e quais não o são.

filosofiareal

«Quem hoje em dia ensina filosofia não selecciona o alimento para o seu aluno com o objectivo de lhe adular o gosto, mas sim para o modificar.»
Wittgenstein