14 outubro 2006

«O apagamento da filosofia?»

(Texto de José Gil na Visão de 12 de Outubro)

Qualquer coisa vem imperceptivelmente acontecendo ao ensino da Filosofia no Secundário que é talvez mais preocupante do que se pode crer. Depois do «lapso» de David Justino (mas, precisamente, «o lapso, Freud explica», como se diz vulgarmente), não se tocou mais na Filosofia. Aparentemente. Na realidade, várias medidas, directas e indirectas, foram surgindo: a Filosofia deixou de ser disciplina obrigatória no 12º ano, tornando-se opcional. Agora, anuncia­-se que ela já não é exigida para o acesso a qualquer curso do Ensino Superior, incluindo o de Filosofia!

Pergunta-se: nestas condições, quantos alunos escolherão Filosofia como opção no 12º ano? O desaparecimento da disciplina no último ano do Secundário desenha-se como provável. Mais: no 11º ano, o exame de Filosofia deixa de existir, não sendo necessária qualquer prova de aferição dessa disciplina. Continuando a ser matéria obrigatória nos 10º e 11º perde assim algo do seu prestígio como «disciplina fundamental», o que levará, sem dúvida, os alunos a dar-lhe ainda menos importância do que tem. Por outro lado, criaram-se «cursos profis­sionalizantes» a partir do 10º ano: nesse ramo da educação a Filosofia desapa­rece como «disciplina fundamental» (aparecendo, eventualmente, de forma residual, na Area de Integração que, com o Português, a Língua estrangeira e a Educação Física constituem o núcleo «so­ciocultural»). Para não falar nas pressões para criar disciplinas ou alargar o âmbito de outras (como a História) que viriam cobrir ou «integrar» temas filosóficos tradicionais.

Assim se apaga lentamente, sem barulho, uma disciplina. E com ela, reduzir-se-ia o número de professores, e poupar-se­-iam mais uns milhões no orçamento da Educação. A questão é saber se a minimização progressiva do ensino da Filosofia - porque outras medidas redutoras virão - ajuda ou não o processo de modernização da sociedade portuguesa. Para já, observemos que esta evolução no Secundário teria efeitos semelhantes na Universidade. Na docência e na investigação - o que seria desastroso.

Porquê este menosprezo pela Filosofia? Uma certa corrente de opinião considera-a inútil, improdutiva, um luxo dispensá­vel. Numa sociedade pragmática (no mau sentido) em que o valor e a pertinência de uma actividade se medem cada vez mais pelo critério exclusivo da produtividade económica, a Filosofia aparece como a disciplina menos necessária, mais vã e mesmo, para alguns, nefasta, porque perturbadora do funcionamento controlado da «sociedade do conhecimento». Pois não é certo que nem conhecimento produz? Não são os filósofos os primeiros a afirmar que a filosofia não tem nem objecto nem finalidade precisas? Abaixo, pois, a Filosofia - a religião substitui-a plenamente e com proveito para a boa ordem social.

Esta ideia, muito espalhada na mentalidade tecnicista de hoje, é apenas uma opinião errada. Faz parte de uma certa dóxa já antiga, agora renovada na sociedade das novas tecnologias. A ideia é: a modernização não precisa da Filosofia, basta-nos uma sociedade coesa à volta de certos valores e ideais.

Paralelamente a esta dóxa antifilosófica, desenvolveu-se na opinião pública europeia um inte­resse cada vez maior pela Filosofia: como sintomas, o sucesso de livros como O Mundo de Sofia, a proliferação dos café­philo, dos congressos não universitários sobre Filosofia, a exigência explícita da reflexão filosófica na bioética, na esté­tica, nas ciências da informação e da imagem. Para não falar nos incentivos à «introdução de mais Filosofia no en­sino, a curto e longo prazo» (Relatório do Parlamento da Comunidade Francesa, 2000), ou na extraordinária importância que a Filosofia para (ou «com») crianças está a tomar no Ensino Básico de certos países (como a Espanha).

Sobre aqueles que desprezam o ensino da Filosofia por ser inútil, direi que mesmo do seu ponto de vista se enganam redondamente: por exemplo, sabe-se que o ensino da Filosofia para crianças abre extraor­dinariamente as competências dos alunos na aprendizagem das outras disciplinas. E, porque é inútil, a Filosofia a1arga o conhecimento, estabelece pontes novas entre domínios científicos diferentes, proporcionando a criação de novos objectos e novas disciplinas. O trabalho do conceito é um trabalho de criação, e a Filosofia é, antes de mais, criação de pensamento. Daí as suas repercussões, da política ao design - atravessando toda a cultura, a arte e o conhecimento; assim como na ética e prática da democracia. Daí a sua importância (reconhecida em vários dossiês da UNESCO) para a educação da cidadania.

Seria um erro profundo crer que se pode fazer a economia da Filosofia no processo actual de transformação que o mundo vive - e em particular, em Portugal. «Sem a música, a vida seria um erro», escreveu Nietzsche. Extrapolando: «Sem a Filosofia, a vida seria um erro.»

José Gil, in Visão, 12 de Outubro

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«Quem hoje em dia ensina filosofia não selecciona o alimento para o seu aluno com o objectivo de lhe adular o gosto, mas sim para o modificar.»
Wittgenstein